21 de jun de 2011

Sobre o Cavaquinho



   Réplica de um cavaquinho antigo

História do Cavaquinho:

Existe unanimidade entre autores como Oneyda Alvarenga, Mário de Andrade, Renato Almeida e Câmara Cascudo sobre a origem portuguesa do cavaquinho. Afirma Cascudo que de Portugal o instrumento teria sido levado pra a ilha da Madeira e de lá, após absorver algumas modificações, vindo para o Brasil. Na verdade, o cavaquinho chegou não só a ilha da Madeira mas, também, aos Açores, Havaí e Indonésia.

No Havaí, levado pelo madeirense João Fernandes em 1879, foi rebatizado pelos habitantes locais como ukulele (pulga saltadora), caiu no gosto da população e acabou se tornando símbolo da música havaiana. Na Indonésia, ganhou o nome de Kerotijong (ou viola de kerotjong ou ainda ukulele como no Havaí), e paticipa do conjunto que toca o gênero de mesmo nome, bem parecido com o conjunto de choro brasileiro. No livro Instrumentos Populares Portugueses encontramos a seguinte descrição: "O cavaquinho é um cordofone popular de pequenas dimensões, do tipo da viola de tampos chatos - e portanto das família das guitarras européias - caixa de duplo bojo e pequeno enfraque, e de quatro cordas de tripla ou metálicas - conforme os gostos, presas em cima nas cravelhas e embaixo no cavalete colado no meio do bojo inferior do tampo. Além deste nome, encontramos ainda, para o mesmo instrumento ou outros com ele relacionados, as designações de machinho, machim, machete, manchete ou marchete, braguinha ou braguinho, cavaco etc..."

Além das coincidências de formas e afinações do instrumento lá e aqui, vemos ainda que em ambos os casos o cavaquinho está ligado a manifestações populares, festas de rua, etc. Sobre os gêneros que o utilizam em Portugal, encontramos na mesma publicação o seguinte: "Como o instrumento de ritmo e harmonia com seu tom vibrante e saltitante, o cavaquinho é como poucos, próprio pra acompanhar viras, chulas, malhões, canas-verdes, verdegares e prins". Além dos gêneros que o utilizam em Portugal, outro detalhe marca a diferença entre o cavaquinho no Brasil e em Portugal: a maneira de tocar. Enquanto aqui utilizamos a palheta para tanger as cordas, lá são usados os dedos da mão direita, geralmente fazendo rasgueado.
 
No Brasil o cavaquinho desempenha importante função no acompanhamento dos mais variados estilos, desde gêneros musicais urbanos como o samba e o choro, até manifestações folclóricas diversas como folias de reis, bumbas-meu-boi, pastoris, chegança de marujos.

Waldir Azevedo:




Por volta de 1935, começou a se entusiasmar pelos instrumentos de corda, quando ouviu o famoso "moleque Diabo", fuzileiro naval e multi-instrumentista da época, exímio na execução do violão, do banjo, do bandolim e do cavaquinho. A partir dessa época e das façanhas desse endiabrado instrumentista, Waldir Azevedo foi tomando gosto pela música e trocando a flautinha por um violão, assumindo mais tarde, o bandolim, a viola americana de quatro cordas, o banjo e o cavaquinho. Por volta de 1940, improvisou um conjunto Regional e passou a participar de vários programas de calouros existentes na cidade do Rio de Janeiro, atuando com grande êxito em alguns deles. 

Em 1942, ganhou os concursos de calouros da rádio Cruzeiro do Sul, bem como, o da Rádio Guanabara, conseguindo nota máxima executando ao violão o chorinho "Cambucá" de Pascoal de Barros, que gravaria algum tempo mais tarde; e logo passou a integrar a equipe de artistas daquela emissora. Nessa mesma época, trabalhou no Cassino Copacabana e na Rádio Clube do Brasil.Waldir Azevedo acometido de um pequeno problema no coração, atribuído ao excesso de exercícios de ginástica que praticava, decidiu não investir em sua carreira na Aeronáutica, o que estimulou e despertou mais o seu desejo de dedicar-se à música.

Por volta de 1943, torna-se profissional trabalhando no Conjunto Regional de César Moreno, na Rádio Mayrink Veiga, em, função da vaga aberta por Gumercindo Silva (Gugu); este ao ingressar na Orquestra de Dja1nla Ferreira onde era tocador de Cavaquinho e depois passou ao contra-baixo, tocando inclusive, no conjunto do próprio Waldir Azevedo.

Em1945, estava recém-casado com Olinda com quem teve duas filhas e desfrutando de bom emprego- Em um momento em que a música se definia em sua vida como diletantismo, surge a concretização da profissionalização por convite do violonista Dilermando Reis para integrar o conjunto Regional, recentemente formado, que iria atuar na PRA-3, Rádio Clube do .Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, quando aderiu definitivamente ao cavaquinho. O Regional de Dilermando Rei estava encarregado de substituir o Regional de Benedito Lacerda ao acompanhamento de cantores da Rádio Clube do Brasil.

Nos quatro anos seguintes, Waldir Azevedo, participaria com muito destaque neste Regional, sendo que nos dois últimos anos passou a dirigi-lo em substituição a Dilermando Reis. Nesta época, a Rádio Clube do Brasil funcionava no mesmo prédio da Gravadora Continental, oportunidade em que Waldir Azevedo pôde ser ouvido, quando da execução de suas composições, pelo diretor artístico da gravafiora, o famoso e reconhecido compositor João de Barro (Braguinha), partindo daí o convite para gravar seu primeiro disco. Waldir Azevedo, iniciou-se coma compositor de forma inusitada, para contei as lágrimas de um sobrinho que o visitava e desejava ouvir o tio tocar cavaquinho. Foi quando começou a improvisar algumas notas musicais, no único instrumento que estava a mão, um cavaquinho quê possuía, somente a corda ré. E foi brincando nesta cordel que nasciam os primeiros acordes de um dos chorinhos mais famosos de todos os tempos: o "Brasileirinho". Algum tempo mais tarde, ficou pronta a segunda parte do saltitante chorinho "Brasileirinho" que passou a integrar repertório de Waldir Azevedo, sempre com sucesso.

Em 1949, gravaria seu primeiro disco, em 78 r.p.m., na Gravadora Continental, sob o número 16.189189, formado por dois choros de sua autoria "Carioquinha" no lado A e "Brasileirinho" no lado B, que até hoje compõem o repertório básico de qualquer chorão e sempre são lembrados para novas gravações. Este primeiro disco que Waldir Azevedo gravou como solista de cavaquinho, foi lançado em 05 de Maio de 1949. Desde então, o Brasil passou a conviver com dois marcos importantes, sendo em primeiro lugar a extraordinária aceitação do choro "Brasileirinho ", por todo o público do Brasil, como poucas vezes ocorreu na música instrumental de nosso país e em segundo, o cavaquinho ,se apresentando destacadamente com o instrumento solista e não somente como instrumento de acompanhamento, tornando-se assim, um dos instrumentos mais apropriados para refletir o sentimento do Choro, que caracteriza o mais elaborado e refinado momento dai Música Popular Brasileileira. Waldir Azevedo e seu choro "Brasileirinho", conheceram momentos de glória,- este recebeu letra de Pereira da Costa, passou pelas mãos de Carmen Miranda, Percy Faith, Ademilde Fonseca, Orquestra Filarmônica de Boston, Baby Consuelo, entre tantos instrumentistas do Brasil, além de ser trilha sonora para campanha política

Em 1950 e em campanha publicitária para empresa automobilística coreana em 1997. Com este espantoso sucesso seguiram-se um segundo disco com as músicas "Cinco Malucos " e "O que é que há " e terceiro disco com "Quitandinha " e "Vai por mim ". É no quarto disco, lançado em dezembro de 1950, que surgiu outro sucesso impressionante; o baião "Delicado ", de sua autoria no disco da Gravadora Continental sob o número 1 6.314, que vendeu no Brasil mais de 500 mil cópias.

Em 1957, o Baião Delicado se tornou na música brasileira, recorde absoluto em venda e de execuções nas rádios em todo Brasil, tendo recebido várias gravações na Europa e Estados Unidos, passando pelas mãos de Percy Faith, Ray Connjf e tantos outros instrumentistas do Brasil e do mundo. WaldirAzevedo e Jacob do Bandolim, ao longo dos anos 50, estiveram no centro de uma calorosa e agitada discussão no meio musical brasileiro, que tentava eleger o melhor instrumentista do Brasil. Tal fato, não gerou vencedor mas fixou com clareza as diferenças existentes entre ambos e os seus respectivos instrumentos, pois Jacob do Bandolim era solista de um instrumento mais complexo, possuindo quatro cordas duplas, enquanto Waldir Azevedo era solista de um instrumento menos complexo, possuindo quatro cordas simples, o que o conduzia a dar maior velocidade de interpretação às suas composições. WaldirAzevedo a partir dos sucessos de "Brasileirinho " e "Carioquinha " em 1949 e os sucessos de "Cinco Malucos ", "O que é que há", "Quitandinha ", "Vai por Mim ", "Delicado" e "Vê se gostas" em 1950, continuou gravando pela Continental como acompanhante com seu conjunto para outros solistas ou cantores. Mas, em outras oportunidades reeditaria o sucesso alcançado em 1950, gravando sucessos como "Pedacinhos do Céu " e "Camundongo" (1951 ), "Vai Levando" (1952), "Queira-me Bem" (1953) "Amigos do samba " (1955) e "Jogadinho" (1961) entre tantos outros.

Waldir Azevedo durante onze anos percorre com seu cavaquinho a América do Sul e a Europa, incluindo duas excursões patrocinadas pelo ltamarati na chamada Caravana da Música Brasileira, bem como, esteve no Oriente Médio com Poly, o multi-instrumentista das cordas, e participou de programa na BBC de Londres-Inglaterra, transmitido para 52 países. Em suas viagens por quase todo o mundo, encantou com seu talento na execução do cavaquinho, e sempre tinha que explicar sobre a sua "pequena guitarra".

Sempre com paciência e bom humor as explicações ocorriam de forma a esclarecer de que não se tratava de uma pequena guitarra, pois, a forma de afinação era diferente e que além dos solos que executava, também era importante para o acompanhamento. Assim, podemos constatar que Waldir Azevedo com seu cavaquinho divulgou diante das mais diferentes platéias não só a sua arte maravilhosa, mas também o choro, nossa primeira expressão musical instrumental genuinamente brasileira.  

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